Kutaisi: Descubra Vinhos Naturais e Tradições da Geórgia
Outrora escala da Wizz Air, Kutaisi atrai viajantes para a cultura, os vinhos e as paisagens da Geórgia ocidental
Como se estivesse dividindo as águas, um padre robusto, vestido com sua batina preta, avança pela multidão, equilibrando uma bola de couro cheia de vinho e terra na cabeça. Momentos depois, já totalmente envolto pela agitação, ele dispara um tiro de caçadeira para o ar, provocando um verdadeiro alvoroço em duas aldeias inteiras.
No meio de gritos de alegria e nuvens de poeira, ombros se esbarram, sapatos deslizam no asfalto, e a energia é palpável, enquanto dezenas de homens liberam sua adrenalina em explosões curtas e intensas. Assim se dá início ao jogo anual de lelo burti, ou ‘bola de campo’. Uma vez por ano, no Domingo de Páscoa ortodoxa, duas aldeias vizinhas, localizadas a cerca de 45 minutos de Kutaisi, se enfrentam em um jogo que quase não tem regras e flui de maneira solta. Essa tradição, que remonta ao menos ao século XII, é a resposta vibrante da Geórgia ao rugby e pode durar o dia todo, terminando apenas quando uma das equipes consegue empurrar a bola até um ribeiro na aldeia oposta. Em seguida, a bola é colocada sobre uma campa, como homenagem aos que partiram recentemente.
Na Páscoa do ano passado, fiquei maravilhado não apenas com o espetáculo em si, mas também com o fato de uma tradição tão peculiar e significativa ainda estar viva. E, embora pareça distante da vida moderna, chegar lá a partir de Kutaisi não foi difícil. Desde 2016, quando se tornou a base da companhia low-cost Wizz Air, Kutaisi tem se consolidado discretamente como um dos principais pontos de entrada do país. Porém, apesar do aeroporto, a cidade muitas vezes é vista apenas como um local de passagem. Com as infraestruturas e as experiências turísticas se desenvolvendo rapidamente, isso pode mudar em breve.
No ano passado, a Geórgia bateu um recorde, recebendo 5,5 milhões de visitantes internacionais, e mais de um quarto deles chegou pelo Aeroporto de Kutaisi. No entanto, a maioria não ficou por lá. Nos últimos anos, a taxa de ocupação hoteleira nas regiões fora de Tbilisi tem girado em torno de apenas 35%. Parte desse fenômeno pode ser atribuída ao perfil dos viajantes que visitam a Geórgia. Antes da pandemia, a União Europeia e o Reino Unido figuravam entre os dez principais emissores de turismo do país, mas essa realidade mudou. Hoje, a maioria dos visitantes internacionais vem de países vizinhos, concentrando seu tempo em Tbilisi e na costa do Mar Negro.
É fácil perceber esse desequilíbrio no turismo. Apenas uma dúzia de viajantes, além das equipes de televisão locais, estavam presentes para assistir ao lelo burti, uma das tradições mais singulares que experimentei na Geórgia. Entre eles, estava Emily Lush, autora do blog Wander-Lush, residente há anos na Geórgia e defensora fervorosa de Kutaisi. Para ela, a cidade sempre ofereceu algo que Tbilisi não tem. Tanto que ela e o marido decidiram viver ali, ao invés de se estabelecerem na capital.
"Kutaisi é uma cidade onde se vive bem", afirma. "Comparada a Tbilisi ou Batumi, é menor e mais coesa. Todo mundo se conhece, e existe um verdadeiro senso de comunidade." O trânsito é mais leve, explica, e a cidade proporciona uma experiência mais tranquila, permitindo que os habitantes desfrutem de um estilo de vida mais calmo.
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